sábado, 28 de junho de 2008
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Cansado
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Olho por todo o meu passado e vejo Que fui quem foi aquilo em torno meu, Salvo o que o vago e incógnito desejo Se ser eu mesmo de meu ser me deu.
Como a páginas já relidas, vergo Minha atenção sobre quem fui de mim, E nada de verdade em mim albergo Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.
Como alguém distraído na viagem, Segui por dois caminhos par a par Fui com o mundo, parte da paisagem; Comigo fui, sem ver nem recordar.
Chegado aqui, onde hoje estou, conheço Que sou diverso no que informe estou. No meu próprio caminho me atravesso. Não conheço quem fui no que hoje sou.
Serei eu, porque nada é impossível, Vários trazidos de outros mundos, e No mesmo ponto espacial sensível Que sou eu, sendo eu por `'star aqui ?
Serei eu, porque todo o pensamento Podendo conceber, bem pode ser, Um dilatado e múrmuro momento, De tempos-seres de quem sou o viver ?
O Andaime - Fernando Pessoa
O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida! Ah, quanto do meu passado Foi só a vida mentida De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio Sossego sem ter razão. Este seu correr vazio Figura, anônimo e frio, A vida vivida em vão.
A 'sp'rança que pouco alcança! Que desejo vale o ensejo? E uma bola de criança Sobre mais que minha 's'prança, Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves Que não sois ondas sequer, Horas, dias, anos, breves Passam - verduras ou neves Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha. Sou mais velho do que sou. A ilusão, que me mantinha, Só no palco era rainha: Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas, Gulosas da margem ida, Que lembranças sonolentas De esperanças nevoentas! Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me Quando estava já perdido. Impaciente deixei-me Como a um louco que teime No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas Que correm por ter que ser, Leva não só lembranças - Mortas, porque hão de morrer.
Sou já o morto futuro. Só um sonho me liga a mim - O sonho atrasado e obscuro Do que eu devera ser - muro Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me Para o alvido do mar! Ao que não serei legai-me, Que cerquei com um andaime A casa por fabricar.
